Eu cheguei a Lincoln com um pé atrás. Minha anfitriã, uma grande amiga que mora na cidade, nunca falava muito bem do local como moradora. Sabe aquela velha estratégia de “não crie expectativas para não se decepcionar”? Foi exatamente isso que ela fez comigo. E, para ser sincero, deu super certo. Eu fui até lá sem esperar nada e, no final, fui pega de surpresa pelo charme e pela beleza de Lincoln, uma cidade que se revelou uma verdadeira joia escondida no nordeste da Inglaterra. Com cerca de 100 mil habitantes, ela tem uma história que me fez sentir como se estivesse caminhando por séculos de ocupação, desde os celtas, passando pelos romanos com sua fortaleza Lindum Colonia, até a Idade Média.

Começamos nossa exploração urbana pela rua principal, a High Street. Ela é o coração pulsante da cidade. Nela, você encontra de tudo: lojas das mais variadas, restaurantes de todos os tipos e pubs acolhedores que convidam a uma pausa. Mas o que realmente me fisgou foram as surpresas históricas que pareciam brotar de repente, como se a cidade quisesse mostrar seus segredos aos poucos.
A primeira delas foi o Stokes High Bridge Café. Ele é do século XVI, mas o mais inacreditável é que ele fica sobre uma ponte que data do século XII! Isso quer dizer que esse prédio é a única construção medieval sobre uma ponte ainda existente na Inglaterra. Logo à frente, outra surpresa: o imponente Lincoln Guildhall, um prédio do século XV que já serviu como a prefeitura e hoje corta o caminho de quem anda pela rua principal.


A High Street também tem uma peculiaridade que me chamou a atenção: a linha de trem que a corta, com sua cancela e uma passarela elevada para pedestres, completa com um elevador. Eu achei bem inusitado pois foi uma solução urbanística mais simples do que deslocar a linha do trem ou a estação central dali.
A Grande Subida: da rua principal ao topo da colina
Eu sabia que o melhor ainda estava por vir, pois estávamos indo em direção a The Strait, uma rua que já começa a inclinar e que anuncia a subida para a parte mais alta da cidade. Nela, encontrei a Jews’ House, a casa mais antiga de Lincoln. Com mais de 800 anos de idade, ela já foi uma sinagoga e, hoje, funciona como um restaurante. É incrível pensar que uma construção de quase mil anos ainda está em pé, sendo usada e admirada.
Mas o que realmente me desafiou, e ao mesmo tempo me recompensou, foi a subida pela Steep Hill. O nome já diz tudo. É uma rua digna de cartão-postal, com casinhas de tijolos bem alinhadas e lojinhas adoráveis. A caminhada é intensa, eu confesso, mas a cada passo, a vista para as lojas e a atmosfera da rua me davam um novo fôlego. E valeu cada gota de suor, porque no final da Steep Hill, cheguei ao topo do Castle Hill, o morro que abriga os dois maiores tesouros da cidade: a Catedral e o Castelo.



No Topo do Mundo (Medieval)
Minha primeira parada, claro, foi a Catedral de Lincoln. Eu já tinha visto fotos, mas nada me preparou para a grandiosidade daquele lugar. É um dos edifícios góticos mais impressionantes que já visitei. Estar diante dela é como ser transportado para outra dimensão, onde a luz filtra através dos vitrais coloridos e a arquitetura parece tocar o céu. Fiquei sabendo que, durante o período medieval, ela foi o edifício mais alto do mundo. Adoro a sensação que as igrejas góticas nos proporcionam de nos sentirmos minúsculos, estratégia pensada justamente para intimidar os fieis na idade média. E foi lá que descobri a lenda do Diabrete de Lincoln (Lincoln Imp), uma figura mística que, segundo a história, foi transformada em pedra por um anjo por causar muita confusão. É o tipo de lenda que adiciona uma magia ao lugar.





Do outro lado do morro, logo em frente à catedral, fica o Castelo de Lincoln. Esta fortificação murada do século XI testemunhou tantos capítulos importantes da história da cidade que é impossível não se sentir parte dela. O castelo hoje é um parque aberto ao público, com várias atrações, como a Prisão Vitoriana, um antigo cemitério dos enforcados e um palácio onde funciona algum órgão do governo nos dias atuais. Um dos principais atrativos abrigados lá, é a exposição de uma das quatro cópias originais da Carta Magna, um documento de 1215 que estabeleceu as bases para a lei e a liberdade.
E o ponto alto do passeio? Sem dúvida, foi a caminhada por cima da muralha. O ingresso custa 12 libras e vale cada centavo. A vista de lá de cima é de tirar o fôlego, com uma paisagem lindíssima da cidade e da imponente catedral. Ao longo do percurso você encontra as placas de informação sobre a história do local, e também tem audioguias disponíveis, tornando a caminhada uma verdadeira aula a céu aberto.





Sabores e Histórias Que Continuam
Mas a história de Lincoln não para pela idade média não. Foi lá que que o primeiro tanque de guerra do mundo foi projetado e construído durante a primeira guerra mundial, um marco na história da engenharia militar.
E depois de tanta história, é hora de relaxar. Lincoln, como muitas cidades do Reino Unido, é cheia de pubs incríveis. Eu fui no pub Royal William IV, que fica na beira do rio. Foi o lugar perfeito para curtir um pôr do sol, refletindo sobre todas as descobertas do dia. E para o paladar, as pizzas da Slow Rise e os sanduíches e tortas do café argentino Nonna Juana são uma excelente escolha para expandir o paladar com culinárias mais saborosas que a inglesa.
Lincoln foi uma bela surpresa, um lugar que superou todas as (baixas) expectativas e me deixou com a certeza de que preciso voltar. E se você está procurando um destino com charme, história e beleza pela Inglaterra além dos destinos mais famosos, acredite: Lincoln é a sua próxima parada.
Deixo aqui o vídeo que fiz deste passeio