Campo de Concentração de Ravensbrück: como visitar o maior campo nazista destinado às mulheres perto de Berlim
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Campo de Concentração de Ravensbrück: como visitar o maior campo nazista destinado às mulheres perto de Berlim
Quando pensamos nos campos de concentração nazistas, quase sempre o primeiro nome que surge é Auschwitz. No entanto, a apenas uma hora e meia de Berlim existe um memorial muito menos conhecido pelo público internacional, mas que guarda uma das histórias mais dolorosas do período nazista.
O Memorial de Ravensbrück foi o maior campo de concentração destinado principalmente às mulheres durante o Terceiro Reich. Entre 1939 e 1945, cerca de 120 mil mulheres e crianças passaram por esse lugar, vindas de mais de 30 países diferentes. Muitas delas foram presas por participarem da resistência política, por serem judias, ciganas, testemunhas de Jeová ou simplesmente por serem consideradas inimigas do regime.
Visitar Ravensbrück é uma experiência completamente diferente de conhecer um museu tradicional. É caminhar por um espaço onde milhares de pessoas tiveram seus nomes, sua liberdade e, em muitos casos, suas próprias vidas destruídas.
Foi uma das visitas mais impactantes que já fiz na Alemanha.

Onde fica o Memorial de Ravensbrück
O antigo campo de concentração está localizado na pequena cidade de Fürstenberg/Havel, no estado de Brandemburgo, aproximadamente 90 quilômetros ao norte de Berlim.
Por isso, é um excelente passeio para quem deseja conhecer um dos memoriais mais importantes da Alemanha em uma viagem de bate e volta saindo da capital.
O local está às margens do lago Schwedtsee, uma paisagem de enorme beleza natural que cria um contraste difícil de esquecer quando se conhece tudo o que aconteceu ali durante a Segunda Guerra Mundial.
A história do maior campo de concentração feminino do regime nazista
Ravensbrück foi criado em 1939 exclusivamente para mulheres. Ao longo da guerra, tornou-se o principal campo feminino administrado pela SS.
Embora não tenha sido concebido inicialmente como um campo de extermínio em massa, isso não significa que fosse menos cruel.
Seu principal objetivo era explorar ao máximo a mão de obra escrava das prisioneiras.
As mulheres eram submetidas a jornadas exaustivas de trabalho dentro do próprio campo, produzindo uniformes militares, tecidos e diversos produtos para sustentar a economia de guerra alemã.
Em 1942, a Siemens construiu instalações industriais ao lado do campo. Milhares de prisioneiras passaram então a fabricar componentes elétricos destinados à indústria bélica nazista.
Além disso, muitas mulheres eram enviadas para dezenas de campos satélites espalhados pela Alemanha para trabalhar em fábricas e empresas ligadas ao esforço de guerra.
As condições de vida em Ravensbrück
A rotina era marcada pela fome constante, frio intenso, doenças, violência e exaustão física.
Muitas prisioneiras morreram em consequência dessas condições desumanas. Outras foram executadas, submetidas a experimentos médicos ou assassinadas nos últimos meses da guerra, quando uma câmara de gás foi construída ao lado do crematório.
Apesar de Ravensbrück não ter sido criado originalmente como um campo de extermínio, milhares de mulheres perderam a vida ali.
O que ainda pode ser visto no memorial
Depois da guerra, boa parte das estruturas foi demolida. Mesmo assim, diversos edifícios originais permanecem preservados e ajudam a compreender a dimensão do campo.
Durante a visita é possível conhecer:
- a antiga administração do campo, onde abriga o museu principal, com fotografias, documentos e objetos pessoais;
- áreas industriais utilizadas pelas prisioneiras;
- o prédio da antiga prisão;
- o crematório com os fornos originais;
- as antigas residências dos oficiais da SS.
O museu possui uma exposição extremamente completa. Fotografias, cartas, documentos oficiais, roupas, móveis e objetos pessoais ajudam a reconstruir parte do cotidiano vivido pelas mulheres presas em Ravensbrück.
As crianças presas em Ravensbrück
Uma das partes que mais me emocionou durante a visita foi descobrir a quantidade de crianças que passaram pelo campo.
Algumas chegaram acompanhando suas mães. Outras nasceram dentro de Ravensbrück, seja porque a mãe havia chegado ao campo já grávida, ou por terem sido fruto dos estupros sofridos por algumas prisioneiras.
A partir dos 12 anos, elas já eram obrigadas a trabalhar. As menores permaneciam em alojamentos extremamente precários. Bebês e crianças pequenas dividiam as mesmas camas, sem higiene adequada, alimentação suficiente ou atendimento médico.
Muitas sequer chegaram à infância. É impossível permanecer indiferente diante dessa realidade.
Olga Benário: figura da história brasileira que passou por Ravensbrück
Para nós, brasileiros, Ravensbrück também guarda uma história muito conhecida. Foi ali que esteve presa Olga Benário Prestes entre 1939 e 1942.
Militante comunista nascida na Alemanha e companheira de Luís Carlos Prestes, Olga foi deportada do Brasil grávida durante o governo de Getúlio Vargas e entregue ao regime nazista.
Após permanecer anos em Ravensbrück, foi transferida em 1942 para o centro de extermínio de Bernburg, onde foi assassinada em uma câmara de gás.
A escultura “Die Tragende” e o gesto de coragem de Olga Benário
Às margens do lago está uma das obras mais simbólicas de todo o memorial: a escultura Die Tragende (“A Mulher que Carrega”), criada pelo escultor Will Lammert.
A obra foi inspirada em um episódio real envolvendo Olga Benário: após um dia inteiro de trabalho forçado próximo ao lago, uma prisioneira desmaiou completamente durante a chamada devido ao esgotamento físico.
Mesmo sabendo que qualquer demonstração de solidariedade era proibida pela SS, Olga desafiou as ordens dos guardas. Ela colocou a companheira desacordada nos braços e a carregou até a enfermaria diante de todos.
A escultura eterniza esse momento de coragem e humanidade.
Em um lugar construído para destruir completamente a dignidade das pessoas, aquele gesto mostrou que ainda existia espaço para compaixão e resistência.
O crematório, a prisão e as casas dos oficiais da SS
Outro espaço importante do memorial é o antigo prédio da prisão, destinado às prisioneiras consideradas problemáticas, onde os castigos eram ainda mais severos. Durante minha visita, infelizmente, esse edifício estava fechado para restauração.
Já o crematório permanece aberto e conserva seus fornos originais. Entrar naquele ambiente foi, sem dúvida, o momento mais pesado de toda a visita.
Ao lado dele funcionava uma câmara de gás improvisada construída nos últimos meses da guerra, posteriormente demolida.
Também chama bastante atenção a área onde ficavam as residências dos oficiais da SS e dos guardas responsáveis pela administração do campo. Essas casas foram construídas praticamente ao lado do sofrimento das prisioneiras.
Hoje, algumas delas fazem parte do memorial e receberam exposições permanentes que ajudam a compreender como funcionava toda a estrutura administrativa responsável pelo campo de concentração.
Percorrer esses ambientes evidencia um contraste perturbador entre a vida cotidiana dos oficiais e a realidade vivida pelas mulheres presas a poucos metros dali.
Vale a pena visitar Ravensbrück?
Ravensbrück não é um passeio fácil. Também não é um lugar para quem procura apenas conhecer mais um ponto turístico da Alemanha. É um espaço de memória.
Ao caminhar pelo memorial, entendemos que preservar lugares como esse não significa viver preso ao passado. Significa reconhecer o que aconteceu, homenagear as vítimas e garantir que essas histórias continuem sendo contadas para que atrocidades semelhantes nunca mais se repitam.
Acho que é uma boa alternativa para quem já conheceu o campo de Sachsenhausen que também fica perto de Berlim ou mesmo para quem tem interesse no assunto e quer visitar apenas esse campo.
Informações para visitar o Memorial de Ravensbrück
Localização: Fürstenberg/Havel, Brandemburgo
Distância de Berlim: aproximadamente 90 km
Tempo de viagem: cerca de 1h com o trem linha RE5, mais uns 30 min caminhando da estação de trem até o memorial.
Tempo recomendado para visita: entre 3 e 5 horas
Dica: existe um ônibus local que sai da estação de trem e deixa perto do memorial, mas confira os horários antes pois ele tem poucas vezes ao dia. Eu usei o google maps pra ver o horário no dia.
Fique com o vídeo completo que fiz na minha visita ao memorial.
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